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terça-feira, 7 de novembro de 2017

A possessão por agentes espirituais (Espíritos Vivos, Tradições Modernas: possessão de espíritos e reintegração social pós-guerra no Sul de Moçambique: Capitulo 2)

1. A possessão por agentes espirituais

O capítulo 2 do livro sobre espíritos vivos, tradições modernas procura desenvolver o significado da possessão pelos espíritos entre os grupos Tsongas, do sul de Moçambique.
De acordo com Honwana (2002), a possessão pelos espíritos consiste num estado particular em que o indivíduo experimenta a separação temporária da sua própria essência e identidade. Ainda no âmbito desse conceito, Firth (apud Honwana, 2002) refere que esta é uma forma de transe em que as acções comportamentais de uma pessoa são interpretadas como prova do controlo do seu comportamento por um espírito normalmente exterior a si próprio.

Na temática sobre o significado da possessão pelos espíritos, Honwana (2002) refere que aquando da morte de um indivíduo, crê-se que o seu espírito permanece como manifestação do seu poder, personalidade e conhecimento na sociedade. Portanto, esses espíritos ainda exercem uma influência significativa na vida dos vivos, sendo por isso a necessidade de se criar uma harmonia com estes e seguir suas vontades.

Honwana (2002) afirma existir uma certa hierarquia nesses espíritos, baseada no grau de poder e importância que tinham quando em vida. Assim, os espíritos mais importantes são os dos anciãos, devido, poi em vida detinham posições superiores, o que faz do mundo espiritual uma continuação do mundo dos vivos. A principal função desses espíritos é orientar e controlar os vivos, fertilizar as mulheres e as terras, dar saúde, riqueza, doença ou pobreza.

Os espíritos são deuses, localmente denominados de Swikwembo (em Tsonga). Este termo, etimologicamente é composta por dois elementos: o prefixo swi (plural) e xikwembo (deus).
De acordo com Honwana (2002), ainda nesta temática acredita-se que os espíritos são como bebés e, tal como estes, se encontram próximos da natureza, não possuem consciência social humana, de tal modo que não se pode discutir com eles, tem que ser tratados com carinho e amor, são como antepassados que regressam à vida.
Esta autora refere que antes da interpenetração dos grupos Nguni e Ndau, no século XIX, existiam entre os Tsongas apenas dois tipos de tinyanga: nyanga (praticantes de medicina tradicional “curandeiros” não possuídos pelos espíritos) e os nyangarume (possuídos por espíritos tinguluve, também conhecidos por malhongas) são especialistas em medicina à base de plantas para adivinharem, curarem e combaterem a magia e a feitiçaria mas sem entrarem em transe.

A segunda divisão do capítulo, Honwana (2002) procura abordar a história da interpenetração dos Tsongas com os grupos Nguni e Ndau e os resultados consequentes. Assi, refere-se que durante o Mfekane os Nguni do Natal se separaram do estado Zulo de Shaka e emigraram para Moçambique, monde conquistaram e dominaram os povos encontrados pelo caminho, até criar-se o Estado de Gaza, no sul de Moçambique, entre os Tsongas.

No estado de Gaza, as memórias relativas a vida religiosa referem a diferentes tipos de praticantes religiosos tradicionais das três formações sociais: os Nguni (mungoma ou ngoma), os Ndau (nyamusoro) e os Tsongas (nyanga e nyangarume).
Honwana (2002), afirma que para além de lidarem com a gestão da doença, parte dos praticantes da medicina tradicional são especialistas na neutralização de espíritos maus (os mulhiwa ou xipoko). Estes swikwembo são os espíritos de pessoas cuja morte foi provocada por acções antissociais de magia ou feitiçaria e, geralmente manipulados pelos valoyi-feiticeiros, nas suas acções contra membros da comunidade (Binford, apud Honwana, 2002).

Sobre a encarnação de espíritos não-linhageiros, a autora refere que a interação entre vários grupos deu lugar a um novo tipo de praticantes da medicina tradicional: o nyamussoro, o qual incorpora os três tipos de seres espirituais (Nguni, Ndau e Tsonga) combinando os seus poderes e funções. Assim, o nyamussoro é o nome original do praticante Ndau de medicina tradicional.

Segundo Honwana (2002), o nyamussoro é um termo Ndau e pode dividir-se etimologicamente em três elementos: o afixo nya, o morfema mu e a raiz soro. Sendo assim, o nya é um prefixo de posse, o um morfema de classe 1 nas línguas Bantu, referente ao singular de seres humanos e animais e objectos personificados, por último o soro é um lexema, raiz que adquire significado ao ser precedida por um morfema (o mu).

O nyamussoro detém conhecimento que lhe fornece poder transmitido pelos antepassados através do processo de possessão. É simultaneamente adivinho e ervanário, possuído por espíritos linhageiros dos tsongas-tinguluve ou malhonga e pelos espíritos não-linhageiros pertencentes aos povos Nguni e Ndau. Este tem por função a adivinhação através do transe e dos ossículos; o exorcismo (kufemba) e a cura de várias doenças através do uso de plantas medicinais.

Honwana refere que o vanyamussoro são praticantes da medicina tradicional Tsonga que absorveram os espíritos estrangeiros Ndau e Ngni nas suas crenças e práticas. Essa absorção e integração dos espíritos é feita através do casamento e do fenómeno mpfhukwa (acordado, ressuscitar). Entretanto, a posse pelos espíritos Ndau é feita por mpfhukwa, pois poucos Tsongas estabeleceram ligação matrimonial com os Ndau.

Os espíritos mipfhukwa, também conhecidos por swikwembo swa matlhari (espíritos das armas, da guerra) são de militares estrangeiros mortos nas guerras Nguni e, a estes é reconhecida a capacidade de ressuscitar para exercer vingança, provocando doenças ou matando os descendentes dos que os mataram ou maltrataram em vida, ou apenas pedir protecção.

A explicação para a sua aparição relaciona-se ao facto de estes não terem sido enterrados devidamente, provocando amargura. Este aparecimento é tipicamente Ndau e a capacidade de ressurgir vinda de uma planta chamada muhuko. A forma de restabelecimento do equilíbrio com estes espíritos parte da exigência destes pela construção de um ndhumbha (palhota de espíritos), uma rapariga virgem para virar esposa dos espíritos, uma cabra ou vaca para a reprodução, às vezes dinheiro.
Relação entre seres espirituais
De acordo com as pesquisa relaizadas pelo cientista Mahumana, Os espiritos relacionam-se uns com os outros, assim como com os seus hospedeiros humanos, reprodunzindo talvez nalguns caso as formas de interação e relacionamentos humanos. As relações que estabelcem são  entre espiritos linhageiros e tinguluve-  e os espiritos não linhageiros-vanguluve e vandau que coabitam o mesmo individuo.
Como é que os espiritos se relacionam uns com os outros?
de acordo com Mahumana cintando Joel Cuna a relação entre os espiritosé uito estreita apartir do momento em que os espiritos vnguni e vandau deixam de ser estrageiros, pois contraím casamento, obtendo uma nsati- wa swikwembu. E quando os espiritos aparecem em uma midium aparecem obedecendo uma certa ordem ordem hierarquica onde geralmente são os espiritos vandau os primeiros aparecer por serem mais poderosos em determento dos outros e isso é um indicio que os espiritos se comunicam ou se relacionam entre eles.
Charlatanismo: a fraude aceite?
Receonhece a existencia de charlatões na área de medicina tradicional e esse fenomeno é mais facil de se identificar nas zonas rurais do que nas cidades pelo facto de nas zonas rurais se cnhecerem quase todos e como que eles trabalham.
Acreditasse que o charlatanismo tenha surgido devido a situação de crise social e economica no país, pois os individuos teram visto na profissão uma forma de aliviar os seus problemas sociais e economicas, alias essa mesma crise segundo Mahumana deixa as pessoas vulneraveis a estorção a medida que vão procurar desespedamente por um refugio e coragem no mundo metafisico.
Como forma de evitar cair emdiagnosticos de charlatões o Mahumana acnselha a procurar diferentes medicos tradicioanais para ver diferentes pontos de vistas e escolher aquele que achar mais conveniente ou apropriado contudo esse metodo poder gerar três consequencias primeira dilui o conhecimento e poderes dos nyangas, o cliente ter que pagar dua a três consultas e apresentar diagnosticos menos precisos e mais vagos por forma a acomodar as expectativas do doente e agarantir o seu retorno no futuro.


Existe duas formas de  possessão, a primeira é desencadeada por possessão Central e a segunda por Periférica, maioritariamente a função do nyamusoro é exercida pelas mulheres do que os homens, isto deve-se ao facto de os espíritos estrangeiros entrarem nas famílias através das mulheres,  onde o espírito não-linhageiro contraí matrimónio com uma rapariga virgem (nsati wa xikwembu) e, em muitos casos, ela fica possuída tornando-se, por consequência uma praticante de medicina tradicional (Honwana., 2002).
Earthy (1933) citado por Honwana (2002), indica que o nyamusoro-Ndau era exclusivamente um tipo e praticante de medicina tradicional do sexo feminino. Ernesto Tembe disse que os svikwembu swa mathlári (espíritos da guerra) eram maioritariamente de rapazes jovens que entraram para o exército antes de casarem.


Lewis (1971) nos seus estudos assinala que na possessão periférica os espíritos que possuem a mulheres e outros grupos  são usados como estratégias indirectas do ataque, visando chamar atenção, reparar injustiças e reclamar concessões aos seus superiores.
Os cultos da posse, no contexto do Sul de Moçambique, envolvem tanto homens como mulheres, quer iniciados, quer adivinhos, médiuns e curandeiros profissionais,  e a posse pelos espíritos tem como finalidade dar tinyanga (praticantes de medicina tradicional) as comunidades.
Os espíritos bons (tinguluwe, vanguni e vandau), o indivíduo possuído é sujeito a uma iniciação e torna-se nyamusoro ou nyangarume, os espíritos maus ( mudhiwa ou xipoko), os espíritos possuidores têm que ser exorcizados,  porque creia se que eram frutos de magia negra e feitiçaria.

A possessão central, encontrava se homens importantes em competição por posições de poder e autoridade através da posse por espíritos locais que sustém directamente a moralidade pública, e os espíritos locais tinguluwe com estes espíritos estrangeiros vanguni e vandau deu origem ao novo praticante da medicina tradicional o nyamusoro.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Igualdade, Gênero e DH


Índice



  1. Introdução

O género é mais do que as características biológicas e/ou anatómicas. Ele é uma construção social, havendo neles diferenciação de papéis entre homens e mulhers. Este conceito está directamente ligado à igualdade e aos direitos humanos, porque a igualdade de que se fala é entre homens e mulheres (género) e é assegurado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O presente trabalho enquadra-se no âmbito das actividades previstas para a cadeira de Perspectivas Africanas dos Fenómenos Psicológicos, ministrada no curso de Psicologia das Organizações, na Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane.
O trabalho está estruturado da seguinte forma: género, construção do género, igualdade, Direitos Humanos, Declaração Universal dos Direitos Humanos, a questão do Género, Igualdade e Direitos Humanos em Moçambique, relação tema-cadeira, considerações finais e referências bibliográficas.
    1. Objectivos

      1. Objectivo Geral

  • Compreender como é percepcionada a questão do Género, Igualdade e Direitos Humanos em Moçambique.
      1. Objectivos específicos

  • Descrever como é construído o género;
  • Identificar os princípios que norteiam a igualdade;
  • Relacionar os conceitos de Género, Igualdade e Direitos Humanos.
    1. Metodologia

Para a elaboração do trabalho, fez-se a revisão bibliográfica, seguida da discussão intragrupal e a posterior compilação dos conteúdos.

  1. Revisão da Literatura

    1. Género

O Género é entendido como sendo as relações estabelecidas a partir da percepção social das diferenças biológicas entre os sexos (Scott, 1995 citado por Dos Anjos 2000). Por outro lado, Neto (2002) define género como sendo as significações que sociedades e pessoas dão ao ser homem ou mulher.
      1. Construção do Género

O género é uma categoria social na organização das relações culturais e sociais – influenciam a vida dos homens e das mulheres. Quando nos perguntamos “O que é ser-se um homem ou uma mulher?”, somos confrontados com inúmeras características que automaticamente associamos a cada um dos sexos, distinguindo homens e mulheres. É comum, por exemplo, afirmar-se automaticamente que os homens são fisicamente mais fortes e as mulheres mais frágeis (Silva, 2007).
As diferenças de género não são determinadas biologicamente, mas geradas culturalmente. Convencionou-se então, utilizar o termo sexo para designar as diferenças anatómicas e biológicas que distinguem o corpo masculino do feminino e o termo género para designar as diferenças psicológicas, sociais e culturais entre os indivíduos do sexo masculino e os do feminino (Giddens, 2001 citado por Silva, 2007).
Para melhor compreender a desigualdade de género é fundamental conhecer os diferentes papéis de género associados ao masculino e ao feminino. O conceito de género é mais abrangente. Ele está institucionalizado e faz parte da estrutura social que condiciona as relações de homens e mulheres, a vários níveis (silva, 2007).
Na visão de Piri (2013), para promover um progresso, a ONU Mulheres propõe a adopção de um objectivo independente que aborde a realização da igualdade de género, os direitos das mulheres e seu emponderamento, que se apoie nos direitos humanos e confronte as relações de poder desigual. Para tal, conceberam-se três áreas que requerem medidas urgentes: A primeira tem a ver com a eliminação da violência contra as mulheres. A segunda, mulheres e homens devem ter igualdade de oportunidades, recursos e responsabilidades para tornar a igualdade uma realidade. E a terceira, as mulheres devem participar igualmente nas esferas de decisão em casa, no sector privado e nas instituições governamentais.
    1. Igualdade

De acordo com Barros (2005), igualdade opõe-se à diferença, mas por outro lado, contradiz-se com desigualdade. Igualdade consiste em tratar dois ou mais indivíduos, relativamente a algum aspecto ou direito, conforme sejam concedidos mesmos privilégios independentemente de serem diferentes no que se refere ao sexo, à etnia ou à profissão.
Por outro lado, Scott (2005) define a igualdade como sendo um princípio absoluto e uma prática historicamente contingente. Não é a ausência ou a eliminação da diferença, mas sim o reconhecimento da diferença e a decisão de ignorá-la ou de levá-la em consideração.
Tendo em conta a posição dos autores, pode-se afirmar que a igualdade consiste em nem o homem, nem a mulher serem subjugados pela sociedade, mas poderem usufruir das mesmas oportunidades de participação e reconhecimento.
A Constituição da República, no seu artigo 36 prevê que “homem e mulher são iguais perante a lei em todos os domínios da vida política, económica, social e cultural”. Numa visão mais geral sobre os princípios da universalidade e igualdade, no seu artigo 35 está estabelecido que “todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da sua cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais, profissão ou opção política”.
    1. Direitos Humanos

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) os direitos humanos são “garantias jurídicas universais que protegem indivíduos e grupos de pessoas contra acções ou omissões dos governos que atentem contra a dignidade humana”.
Para Mendes (2002) citado em Teles e Brás (2010), Direitos Humanos são um conjunto de normas inerentes à essência da pessoa humana e têm por objectivo primeiro e último garantir a esta, dentre outros direitos, o direito à vida, à liberdade, à igualdade e à integridade, sendo sempre de respeito e aplicação universal.
Estes direitos humanos são garantidos internacionalmente, juridicamente protegidos e universais, porque se baseiam num sistema de valores comum. Centram-se na dignidade do ser humano, protegendo indivíduos e grupos.


      1. Declaração Universal dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), que delineia os direitos humanos básicos, foi adotada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. De acordo com Teles e Brás (2010), os direitos humanos baseiam-se no conceito filosófico de direitos naturais estabelecidos pela própria natureza humana. Estes são caracterizados pelos seguintes princípios:
  • Universalidade: princípio que olha os direitos humanos como sendo de todos sem nenhuma condição ou situação que pode justificar o desrespeito à dignidade humana. Ademais, ninguém pode renunciar a seus direitos.
  • Indivisibilidade: todas as pessoas têm o direito de gozar dos direitos em sua totalidade, sem fraccionamento ou redução, sem serem obrigadas a abrir mão de um direito para aceder a outro.
  • Interdependência: os direitos estão relacionados entre si e nenhum tem mais importância do que o outro.
  • Exigibilidade e justiciabilidade: os direitos humanos podem ser exigidos quando forem desrespeitados ou violados. Como os direitos são previstos em leis nacionais e também em normas internacionais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos entre outros, para exigi-los, pode-se recorrer tanto ao sistema de justiça nacional como internacional.
    1. A questão do Género, Igualdade e Direitos Humanos em Moçambique

Para Muniz e Lopes (s/d,) o conceito de género se refere à construção social das diferenças biologicamente observadas entre homens e mulheres. Assim, esta se prende àquelas assimetrias verificadas nos géneros, manifestas sob forma dos diferentes papéis que se espera que um determinado sexo desempenhe.
A questão do género em Moçambique, conjugado aos direitos humanos, ainda é uma questão tomada de forma leviana. Algumas mulheres ainda são vistas e tomadas como incapazes de participar na íntegra no desenvolvimento social, económico, político e principalmente na tomada de decisão nas várias questões governamentais do país.
Embora se notem alguns avanços em relação à igualdade de género em Moçambique, algumas zonas deste país, principalmente as recônditas, enfrentam várias dificuldades como o acesso a educação, ao emprego e nestas poucas possibilidades, os homens são tomados como um ser que deve ter prioridade a uma educação formal, enquanto às são incumbidas actividades domésticas, como a de cuidar dos filhos, irmãos mais novos, do marido, ir à machamba, entre outras responsabilidades impostas pela sociedade, ou seja, ainda está enraizada a ideia no seio das famílias moçambicanas que investindo na educação dos homens, estes poderão trazer riquezas e enaltecer o nome da família.
As dificuldades que as mulheres enfrentam para acabar com a desigualdade, instalam-se nas questões ligadas aos direitos universais de todos os seres humanos, que muitas vezes é passado por cima pelos homens que desde há séculos são tidos como detentores de todos os direitos, excluindo desta forma os direitos da mulher consagrado nos direitos universais de todos seres humanos.
Culturalmente, a divisão de trabalho por sexo tem sido vista como sendo uma forma eficiente de funcionamento familiar (Seco, 2013). Assim, pode-se verificar que estas desigualdades são perpetradas ao nível da unidade básica da sociedade, a família. Também verifica-se que certos comportamentos não adequados sendo perpetrados por homens, por exemplo a violência, são tolerados mais do que nas mulheres.
As questões culturais permeadas em algumas sociedades moçambicanas que tomam os homens como o centro de todos os direitos, levam a mulher a perder os seus direitos devido à obediência às questões culturais enraizadas numa determinada cultura.
O casamento prematuro é uma das questões que muitas vezes arrancam à mulher o direito de escolha e o direito à educação e à liberdade. Deste modo, as mulheres acabam perdendo esse direito e em estágios mais graves tornando-se mães e donas de casa com idades inferiores a 18 anos.
Outro aspecto que muitas vezes acontece na flor da pele da mulher, que é a maior vítima da violação dos direitos humanos quando se trata de género, é a violência doméstica praticada contra mulher, que constitui uma das questões da violação dos direitos da mulher. Há mulheres que sofrem violência física, psicológica e sexual dentro de casa e ainda são ameaçadas para que não denunciem.
A propósito disso, Mejía, Osório e Arthur (2004) ressaltam que importa tocar no conceito de representação social, este que contém os valores que classificam os papéis de homens e mulheres e que são inerentes aos espaços de socialização. Este conceito exprime os modelos de pensamento e os discursos que caracterizam a desigualdade de género.
Para Teles (1998) citado por Mejía, Osório e Arthur (2004), o conceito de violência de género é também conhecido como violência contra a mulher, pois esta considera que as relações entre mulheres e homens têm sido historicamente desiguais, propiciando a subordinação da população feminina à masculina, que impõe normas de conduta às mulheres e as devidas correcções ao incumprimento dessas regras.
    1. Relação entre Género, Igualdade e Direitos Humanos com Perspectivas Africanas dos Fenómenos Psicológicos

Sob o ponto de vista de Silva (2007), para o estudo dos fenómenos psicológicos é necessário buscar conhecimentos das áreas das ciências humanas. Ciências Humanas são áreas extremamente importantes para que se compreendam as manifestações e interpretações de determinados comportamentos, num determinado tempo e espaço.
A cadeira de Perspectivas Africanas dos Fenómenos Psicológicos, cujo objectivo é analisar o sujeito sob o ponto de vista étnico, tenta perceber como a cultura e as construções sociais podem influenciar na interpretação dos fenómenos. Como já antes foi referido, o Género é uma construção social e psicológica e questões culturais contribuem para que não haja a igualdade que é prevista nos Direitos Humanos, entrando aí a relação tema-cadeira, onde esta procura entender as diferentes visões de um mesmo fenómeno, buscando formas realísticas de intervenção.


  1. Considerações finais

O Género, a Igualdade e os Direitos Humanos são conceitos que não se podem dissociar, pois os papéis sociais atribuídos a cada género revela o grau de igualdade existente entre eles e em que medida estes respeitam os direitos humanos.
A questão de género é resultado de uma construção social do grupo onde homens e mulheres estão inseridos, onde se faz a diferenciação dos papéis sociais que cada um deles deve desempenhar. Esta diferenciação de papéis cria desigualdade quando um género é mais favorecido que o outro em questões ligadas à educação formal, ao emprego, à participação na tomada de decisão e em termos de oportunidades no geral. Assim sendo, são infringidos os Direitos Humanos que preveem a igualdade de género entre homens e mulheres a todos os níveis e circunstâncias socialmente estabelecidas.
Actualmente, com algumas influências ocidentais e com o desenvolvimento do país, este cenário tende a melhorar, ao que as mulheres já começam a ganhar espaço e poder de tomada de decisão. Esta temática tem sido muito abordada e têm surgido cada vez mais projectos voltados para a protecção, emancipação e empoderamento da mulher.



  1. Referências Bibliográficas

Barros, J. D. A. (2005). Igualdade, desigualdade e diferença: em torno de três noções. Universidade Severino Sombras (USS) de Vassouras.
Dos Anjos, G. (2000). Identidade sexual e identidade de género: subversões e permanências. Porto Alegre. Acessado aos 09 de Marco de 20017 as 20 e 55h, disponível em: http://www.scielo.br/pdf/soc/n4/socn4a11.pdf
Mejía, M., Osório, C. & Arthur, M. J. (2004). Não sofrer caladas. Violência Contra Mulheres e Crianças: denúncia e gestão de conflitos. Maputo: WLSA Moçambique.
Muniz, J. Lopes, L. (s/d). População e género. Disponível em: http://www.ssc.wisc.edu/Jmunie/AHP%20aand%gederpdf
Neto, F. (2002). Psicologia Intercultural. Lisboa: Universidade aberta.
Piri, L. (2013). Um objectivo mundial em matéria de igualdade de gênero, direitos e empoderamento das mulheres. Acessado aos 11 de Março de 2017. Disponível em: https://nacoesunidas.org/um-objetivo-mundial-em-materia-de-igualdade-de-genero-direitos-e-empoderamento-das-mulheres/
Scott, J.W. (2005). O enigma da igualdade. Florianópolis.
Seco, S. (2013). Desigualdades (de géneros). Disponível em: http://cadeiras.isct.pt/SDir/SDir-artnl-2012-desigualdade.htm
Silva, G. (2007). Educação e Género em Moçambique. 1a Edição. Porto: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto.
Teles, N. & Brás, E. J. (2010). Género e Direitos Humanos em Moçambique. Maputo.




sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cultura Africana e Comportamento Organizacional


1. Introdução

As organizações são um conjunto de pessoas que juntam esforços para alcançar um certo objectivo, e dentre as varias pessoas cada um tem um jeito característico de se comportar, tendo dessa forma que se adaptar um comportamento padrão ou seja um jeito universal de se comportar.
O trabalho em causa é realizado no âmbito da disciplina de Perspectivas Africanas dos Fenómenos Psicológicos e tem como foco a cultura africana e o comportamento organizacional.
Para delimitar o rumo deste trabalho traça-se o seguinte como objectivo geral compreender a relação entre a cultura africana e o comportamento organizacional e como objectivos específicos discutir os conceitos de cultura, comportamento e comportamento organizacional, explicar a relação existente entre a cultura africana e o comportamento organizacional e Identificar o impacto da cultura africana no comportamento organizacional.
Como procedimento metodológico, foi usada a pesquisa bibliográfica em livros, artigos e revistas científicas com vista a verificar o que já foi publicado sobre o tema referido e a discussão grupal para dar um sentido lógico aos conteúdos.
Pode encontrar-se neste trabalho a discussão dos conceitos chaves para melhor compreensão do tema, uma breve apresentação da cultura africana, alguns indicadores do comportamento organizacional a relação existente entre o comportamento organizacional e cultura africana.

2. Discussão de conceitos

2.1. Cultura

Significações transmitidas historicamente e veiculado por símbolos, um sistema de representações herdado das gerações precedentes e expresso sobre formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam-se, perpetuam e desenvolvem os seus conhecimentos e as suas atitudes para com a vida, (Geertz, 1973 apud Neto 2002, p.14).
A cultura consiste em padrões de comportamento socialmente transmitidos que servem para adaptar as comunidades ao seu modo de vida (tecnologias, modo de organização económica, padrões de agrupamento social, organização política, crenças, práticas religiosas, etc.).

2.2. Cultura Africana

O Homem africano, à semelhança de outros homens, é um ser predominantemente cultural, graças à cultura, ele superou suas limitações orgânicas. A cultura africana reflecte a sua antiga história, sendo tão diversificada como foi o seu ambiente natural ao longo dos tempos. O continente africano é o território habitado há mais tempo, (supõe-se que foi neste continente que a espécie humana surgiu; os mais antigos fósseis de hominídeos encontrados na África, concretamente na Tanzânia e Quénia) têm cerca de cinco milhões de anos. Sendo o continente mais antigo do planeta e a sua evolução agregou uma enorme quantidade de idiomas com mais línguas, religiões, regimes políticos condições de habitação, actividades económicas e de cultura (Krauss & Rosa ,2007).
O homem africano conseguiu sobreviver através dos tempos com um equipamento biológico relativamente simples.
O povo africano foi sempre considerado um povo sem cultura, primitivo, bárbaro ou seja verdadeiros animais e essa visão só foi alterada quando os primeiros países africanos conseguiram sua independência realizando desde então esforços necessários para recuperar a sua cultura (Krauss & Rosa, 2007).
A maior parte da cultura africana foi transmitida oralmente e a história de seus povos foi contada pelos colonizadores europeus, através de missionários, viajantes, e colonizadores que trouxeram relatos sobre a vida e os costumes dos povos aqui residentes.
No continente africano, a cultura é todo o complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos. O homem age de acordo com os seus padrões culturais, ele é resultado do meio em que foi socializado, neste sentido cultura africana é caracterizada pela diversidade de hábitos, costumes, valores e padrões de comportamento e ainda por basear-se nos costumes e tradições (Krauss & Rosa ,2007).


2.3. Comportamento Organizacional



Chiavenato (1999), define comportamento organizacional como sendo o estudo da dinâmica das organizações e como os grupos e pessoas se comportam dentro delas. É uma ciência interdisciplinar. Como a organização é um sistema cooperativo racional, ela somente pode alcançar seus objectivos se as pessoas que a compõe coordenarem seus esforços a fim de alcançar algo que individualmente jamais conseguiriam (Beckard, 1972).
Na mesma linha de pensamento, Araújo (2001), acrescenta referindo que comportamento organizacional é um campo da pesquisa que ajuda a prever, explicar e possibilitar a compreensão de comportamentos nas organizações.
Wagner III e Hollenbeck (1999) citados em Siqueira (2002) entendem-no como uma disciplina que busca prever, explicar, compreender e modificar o comportamento humano no ambiente empresarial.

3. Níveis do comportamento organizacional

Para a análise e compreensão do comportamento organizacional, Robbins (1999) citado em Siqueira (2002) propõe um modelo básico composto por três níveis propondo quais variáveis são de interesse de cada um nomeadamente:
  • Nível individual: neste nível o autor arrola as variáveis biográficas, de personalidade, valores, atitudes e habilidade, pois estas influenciam os processos psicológicos de percepção, motivação e aprendizagem individuais que, por sua vez, afectam o processo de tomada de decisão individual.
  • Nível dos grupos e equipes de trabalho: neste nível a análise é representada no modelo por interacções bidireccionais entre os processos de tomada de decisão grupal, comunicação, liderança, conflito, poder, política, estrutura de grupo e equipes de trabalho.
  • Nível da organização: neste nível o autor relaciona temas como cultura, políticas e práticas de recursos humanos, estrutura e dimensionamento da organização, bem como tecnologia e dimensionamento do trabalho.
Robbins (1999) citado em Siqueira (2002) aponta como resultado do comportamento organizacional a produtividade, o absenteísmo, a rotatividade e a satisfação resultantes da interdependência entre as variáveis integrantes dos níveis de análise individual, grupal e organizacional.


Robbins (2005) coloca que os objectivos do estudo sob comportamento organizacional seriam: explicar, prever e controlar o comportamento humano. Explicar ocorre após o acontecido, por isso explicar no sentido de entender as causas que levam ou levaram a pessoa a se comportar daquela maneira.
Prever está ligado a eventos futuros e, portanto, o estudo do comportamento permite se antecipar aos tipos de comportamento que possam ser apresentados a uma mudança.
Pode-se avaliar o tipo de reacção que os colaboradores teriam a uma tomada de decisão.
Controlar é o objectivo mais controverso no emprego do conhecimento do comportamento humano, na medida em que esse controle não deve ser manipulativo ou ferir a liberdade individual, no entanto, deve-se utilizar o controle de forma ética, e assim permitir que se possa compreender por exemplo, como fazer para levar as pessoas a se esforçarem mais em seu trabalho.
Numa análise profunda do grupo, verifica – se que os conceitos acima apresentados evidenciam os comportamentos dos indivíduos de forma coordenada e complementar que visa atingir um objectivo comum e individual. Segundo Dubrin (2006), esse conjunto de comportamento ocorre de forma grupal, podendo ser grupos de pequena, média e longa dimensão.


4. Relação da Cultura Africana e Comportamento Organizacional

O comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo chamado endoculturação ou socialização. Pessoas de raças ou sexos diferentes têm comportamentos diferentes não em função de transmissão genética ou do ambiente em que vivem, mas por terem recebido uma educação diferenciada. Assim, pode-se concluir que é a cultura que determina a diferença de comportamento entre os homens.
Baseando-se na teoria vigotskyana percebe-se que para compreender o comportamento humano em todos os níveis é imperioso, antes de mais nada que se estude e se pesquise a história sócio -cultural dos indivíduos em causa. Essa visão transporta consigo a noção da importância da cultura na compreensão dos comportamentos quer de indivíduos quer de grupos (Marchiori, 2006).

O comportamento organizacional e social em contexto africano, pode ser explicado com base na cultura destes. As crenças, os valores, as percepções, a visão e as tradições africanas jogam um papel fundamental e crucial nos comportamentos dos indivíduos e de grupos (Marchiori, 2006). Deste modo, Krauss & Rosa (2007), defendem que o comportamento organizacional sofre influência da cultura onde a organização está inserida.
Não há dúvidas de que as organizações localizadas nos territórios africanos, têm uma relação directa das sociedades circunvizinhas, deste modo, há uma comparticipação das tradições, das crenças e dos valores culturais destas. Por outro lado, as organizações são sistemas abertos, com isso, recebe muitos estímulos externos que tem impacto directo no comportamento (Krauss & Rosa, 2007).

Devido a natureza da cultura africana, as organizações inseridas em África tomam características próprias que as distinguem de outras organizações localizadas fora da África. Assim, o comportamento organizacional em África, como um campo de estudo das dinâmicas de comportamentos de indivíduos e grupos em contextos de trabalho, tem una natureza característica e própria.
Contudo, para compreender o comportamento organizacional e as dinâmicas ocorridas nas organizações nas culturas africanas, é preciso que se tenha em mente os valores culturais dessas sociedades.

5. Relação tema-cadeira

Tendo a disciplina de Perspectivas Africanas e dos Fenómenos Psicológicos como objectivo compreender os comportamentos desviantes sob o conhecimento colectivo da comunidade e sendo uma organização no contexto africano, para maior adaptabilidade ao meio, esta tem a necessidade de se adequar aos hábitos, costumes, crenças do local na qual esteja inserida, criando assim uma cultura interna que tome em consideração a cultura local e os objectivos traçados pela organização de modo a que não haja grande disparidade na vivência do trabalhador no que se refere a cultura experienciada no seu contexto formal e informal. O tema se relaciona à cadeira na medida em que estuda-se a visão africana dos fenómenos psicológicos nesta e o comportamento organizacional estuda o comportamento humano dentro das organizações.

6. Conclusão

Neste trabalho abordou-se o tema Cultura Africana e Comportamento organizacional e conclui- se que a cultura africana faz-se sentir nas organizações pelo facto de estarem em África e de que as organizações devem ajustar-se a cultura onde estão inseridas porque cada integrante duma organização tem suas crenças, valores e hábitos mas essas características não devem influenciar negativamente as organizações.
Tendo cumprido com os objectivos traçados no inicio do trabalho, concluímos que as organizações não devem ser instituições fechadas e restritas a cultura africana porque é esse conjunto de significações transmitidas historicamente e veiculado por símbolos que fará com que as organizações estejam adequadas a comunidade e ao contexto em que estiverem inseridas.
Este trabalho foi muito importante pois foi a partir do mesmo que foi possível compreender melhor que devido a natureza da cultura africana, as organizações inseridas em África tomam características próprias que as distinguem de outras organizações localizadas fora da África tendo cada, um toque seu embora estando inseridas num único contexto.

7. Referências Bibliográficas:


  1. Araujo, L. S. G. (2001). Organização, Sistemas e Métodos e as modernas ferramentas de gestão organizacional: arquitetura, benchmarking, empowerment, gestão pela qualidade total, reengenharia. São Paulo: Atlas
  2. Beckard, R. (1972). Desenvolvimento Organizacional: estratégias e métodos. São Paulo: Edgard Blücher
  3. Chiavenato, I. (2005). Comportamento Organizacional: A Dinâmica do Sucesso das Organizações. Campus. Dispunível em: http://culturapopular2.blogspot.com/2010/03/os-africanos.html, acesso no dia 01 de 10 de 2012.
  4. Dubrin, A. J. (2006). Fundamentos do Comportamento Organizacional. São Paulo: THomson
  5. Krauss, J. S. & e Rosa, C. da (2007). A importância da temática de História e Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas
  6. Lobos, J. A. (1978). Comportamento Organizacional: literaturas selecionadas. São Paulo: Atlas
  7. Marchiori, M. (2006). Cultura e Comunicação Organizacional: um olhar estratégico sobre a organização. São Caetano do Sul : Difusão.
  8. Neto, F. (2002). Psicologia Intercultural .Universidade Aberta: Lisboa
  9. Robbins, S. P. (2005). Comportamento organizacional. Sao Paulo: Pearson Education.
  10. Siqueira, M. M. (2002). Medidas do Comportamento Organizacional. São Paulo: Universidade Metodista.

     Autores: 
    Ancha Berta
    Bianca Claudia
    Delto C. Muendane
    Justina Tamele 
    Elcidia Chilaúle
    Luísa Tembe, 2017


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